Após conquistar o acesso com o Remo para a Série A do Brasileirão, o técnico Guto Ferreira não chegou a um acordo para a renovação e está livre no mercado. Em entrevista ao Abre Aspas, o treinador com passagens pelo Bahia negou o rótulo de “técnico de uma divisão só” e espera ter uma nova chance em um clube da Série A.
“Não é nem valores, mas é a busca por respaldo. E o futebol vai ensinando que, quando você reinicia um projeto – e é reinício para a Série A -, muita coisa muda e, no início do ano, você está sujeito a mudanças bastante importantes. E esse processo demanda tempo. Pode ser que acerte como a gente acertou de cara, mas isso necessariamente não é a verdade. Vai demandar todo um trabalho, um processo, para se chegar de novo a um patamar de sustentação que o torcedor almeja, que a gente almeja enquanto trabalha”.
“Não estou no oposto. Eu também quero esse perfil de trabalho, porque, caso contrário, começam a colocar plaquinha no meu pé e me intitular como “rei do acesso”, “o Guto é treinador de Série B.” É só puxar meu currículo com clubes de Série A para ver meus resultados. E com um detalhe: muitas vezes, resultados com um elenco cujo nível de investimento era 20, 30 vezes menor do que o dos clubes de tabela média”.
Guto falou sobre o apelido que recebeu de “Gordiola” por conta do sua aparência física, quando comandava a Ponte Preta em 2012. Apesar do apelido ter ligação com Pep Guardiola e o bom futebol jogado pela Macaca, no fundo é uma forma de preconceito.
“Eu acho que, primeiro, não tenho nada a ver com o Guardiola. Já me perguntaram e eu disse: o que deve ser parecido é o branco do olho. Mas sempre falei: só ficaria chateado se usassem o apelido de forma pejorativa. E, graças a Deus, isso nunca aconteceu. Sempre foi carinhoso, até valorizando. O apelido me humanizou. Até 2013 ou 2014, se você me visse na beira do campo, acharia que eu era um monstro. As caretas, a agitação. Passava a imagem de um cara bronco, rude. Depois que as pessoas me conheciam, viam que eu não era nada disso. Era o momento, a vivência da partida, a tensão. O “Gordiola” humanizou isso. Então, não tenho nada a reclamar; ao contrário, só agradecer”.
“Ninguém pode negar que eu sou gordo. Está aqui [aponta para a barriga]. Agora, como esse “gordo” é interpretado? Para alguns, de forma não pejorativa, carinhosa. O “gordo” comparado ao treinador de sucesso. Embora, como disse, não tenha nada a ver com ele em estilo de jogo ou trabalho. Mas tem algumas coisas dentro do trabalho, alguns trabalhos que impulsionam, valorizam essa aproximação dos nomes, o surgimento desse apelido”.
O treinador revelou que um clube do exterior descartou a sua contratação justificando que a sua imagem não era a ideal. “O que posso dizer é assim: tête-à-tête ninguém vai falar isso para você. Mas, em determinados momentos, eu vivia fases espetaculares em clubes da Série A… Os empresários, um dos sócios que vivia no mundo árabe, vinha e falava assim: “pô, os caras não querem porque você é gordo”. Mas se tem lá, será que não tem aqui também? Embora aqui tenham tido ótimos treinadores com resultados expressivos, o Geninho é um deles. Isso, eu volto a falar: sou cabeça feita, não me preocupo com isso”.

