Fala, Nação! Se ligue. Viram a última lei aprovada na CBF sobre a redução dos estrangeiros no futebol brasileiro? Então, vamos conversar sobre essa parada de forma profissional e no máximo do respeitinho.
Porque, quando a gente olha os números, essa história fica ainda mais estranha.
Vamos começar pelo dinheiro.
Em 2022, os clubes brasileiros analisados pela EY movimentaram R$ 8,1 bilhões em receitas. Em 2025, os 20 clubes da Série A chegaram a R$ 14,9 bilhões. Um crescimento de 84% em apenas três anos. Não dobrou, mas quase. E estamos falando de dinheiro entrando no futebol por televisão, patrocínio, bilheteria, sócio-torcedor, premiação e, cada vez mais, negociação de jogadores.
Agora vamos colocar o câmbio nessa conversa.
No fim de dezembro de 2022, R$ 1 comprava aproximadamente 34 pesos argentinos. Em setembro de 2026, compra mais de 1.500 pesos.
Calma. Não significa que o real ficou 44 vezes mais forte. Significa que o peso argentino perdeu valor de forma brutal.
Mas sabe o que isso significa para o futebol?
Que o Brasil ficou ainda mais interessante.
Um clube brasileiro que recebe em reais, aumentou sua receita e passou a ter uma moeda com enorme poder relativo diante de mercados como o argentino ganhou uma capacidade de contratação que não tinha quatro anos atrás.
Com o Uruguai, a história é diferente. O peso uruguaio não sofreu uma desvalorização parecida. Mas o Brasil passou a oferecer algo que também pesa muito na decisão de um jogador: salário, estrutura, visibilidade, Libertadores, Sul-Americana e um mercado muito maior.
E aí chegamos aos estrangeiros.
Em 2026, temos 159 jogadores estrangeiros de 26 países na Série A. São 48 argentinos, 32 uruguaios e 27 colombianos. Argentina, Uruguai e Colômbia, sozinhos, colocam 107 jogadores dentro do nosso campeonato.
Isso não aconteceu por acaso.
O futebol brasileiro ficou mais rico e passou a comprar talento que antes simplesmente não vinha para cá.
E aqui tem uma coisa que muita gente parece não entender.
O estrangeiro não está roubando lugar do futebol brasileiro. Ele também está aumentando o nível do produto brasileiro.
É evidente que não dá para colocar todo o crescimento do futebol brasileiro na conta dos gringos. Tem profissionalização, aumento de receita, estrutura, formação, tecnologia, gestão e capacidade de investimento.
Mas os estrangeiros passaram a fazer parte desse novo modelo.
E os resultados estão aí.
Desde 2019, somente clubes brasileiros conquistaram a Liabertadores. E os brasileiros também passaram a ocupar cada vez mais espaço nas fases decisivas das competições da Conmebol.
Não é só dinheiro.
É dinheiro + gestão + estrutura + mercado + talento.
Agora vem a parte que eu acho mais estranha dessa história.
A CBF decidiu reduzir progressivamente o limite de estrangeiros relacionados por partida. Hoje são nove. Em 2030 serão apenas cinco.
E tem um detalhe curioso: a média atual é de 5,4 estrangeiros relacionados por partida.
Ou seja: os clubes nem sequer estão usando, na média, o limite atual de nove.
Mesmo assim, vamos reduzir.
E aí vem uma pergunta simples:
Quem exatamente vai deixar de vir para o Brasil?
O estrangeiro nota 10?
Provavelmente não.
Esse cara continuará olhando para a Europa.
O nota 9 também.
O dinheiro europeu continuará sendo maior e os grandes clubes europeus continuarão tendo uma capacidade de investimento que o futebol brasileiro não consegue acompanhar.
O problema está justamente no nota 8 e no nota 7.
É esse jogador que hoje olha para o Brasil.
É esse cara que vem para cá, joga Libertadores, disputa Sul-Americana, ganha visibilidade, aumenta seu valor e pode virar um grande ativo para um clube brasileiro.
E é exatamente esse mercado que vamos começar a fechar.
Em 2022, o limite era de cinco estrangeiros. Em 2023, passou para sete. Desde 2024, são nove.
O futebol brasileiro abriu a porta.
O mercado respondeu.
Os jogadores vieram.
Os clubes ganharam dinheiro.
E agora estamos fechando a porta novamente.
Mas existe uma consequência que vai além da escalação.
Se você reduz a oferta de estrangeiros, aumenta a procura por brasileiros.
É matemática básica de mercado.
Menos oferta. Mais demanda.
E quando aumenta a demanda por jogador brasileiro, o preço do jogador brasileiro sobe.
Então aquele clube que não puder contratar um argentino, um uruguaio, um colombiano ou um equatoriano vai procurar um brasileiro para ocupar aquela vaga.
E provavelmente vai pagar mais caro.
Isso não é proteção de mercado.
É inflação de mercado.
E tem mais.
O futebol brasileiro passou os últimos anos deixando de ser apenas exportador de jogadores.
Agora somos compradores também.
Compramos, desenvolvemos, valorizamos e vendemos.
Olha o caso do Bahia.
O clube contratou o uruguaio Lucho Rodríguez por cerca de US$ 11 milhões. Depois, em 2025, vendeu o jogador ao Neom, da Arábia Saudita, por 22 milhões de euros, cerca de R$ 139 milhões, e ainda manteve 25% dos direitos econômicos para uma futura transferência.
E olha que interessante: menos de um ano depois, Lucho voltou ao futebol brasileiro para jogar no Cruzeiro.
Ou seja, o jogador que veio do Uruguai para o Brasil virou ativo, foi valorizado, foi vendido para o exterior e depois voltou para o próprio mercado brasileiro.
Isso é mercado internacional de futebol funcionando.
Ramos Mingo é outro exemplo.
O Bahia comprou o zagueiro argentino e, depois de valorizá-lo, vendeu o jogador ao América do México por US$ 10 milhões, cerca de R$ 51 milhões, mantendo ainda 20% dos direitos econômicos.
E aí eu volto ao Arrascaeta.
Porque nem todo estrangeiro precisa virar venda milionária para justificar sua contratação.
Alguns viram patrimônio esportivo.
Arrascaeta é um desses casos.
O uruguaio virou um dos grandes jogadores do Flamengo nos últimos anos e um dos principais exemplos de como um estrangeiro pode se integrar ao futebol brasileiro, ganhar títulos, criar identificação com a torcida e se transformar em patrimônio esportivo de um clube.
É isso que uma gestão esportiva profissional precisa enxergar.
O estrangeiro pode ser contratação.
Pode ser ativo.
Pode ser venda.
Pode ser ídolo.
Pode ser tudo isso junto.
E justamente quando o futebol brasileiro conseguiu construir esse mercado, aumentou suas receitas e passou a competir de igual para igual na América do Sul, estamos criando uma barreira para esse processo.
Por isso, não foi por acaso que Flamengo e Bahia votaram contra a proposta da CBF.
São dois clubes que estão vendo essa nova economia do futebol funcionando dentro de casa.
Um tem Arrascaeta.
O outro tem Lucho, Mingo e tantos outros exemplos de um modelo que compra, desenvolve, valoriza e vende.
Talvez tenham sido os únicos lúcidos da Série A naquela sala.
Porque gestão esportiva não é escolher entre brasileiro e estrangeiro.
É montar o melhor elenco possível.
É desenvolver o garoto da base.
É contratar o argentino.
É valorizar o colombiano.
É descobrir o uruguaio.
É vender bem.
É gerar receita.
É ganhar campeonato.
É aumentar o valor do produto.
O futebol brasileiro finalmente descobriu que pode comprar o mundo.
Não parece uma boa ideia, agora, mandar o mundo embora.




