A decisão da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de reduzir gradualmente o limite de jogadores estrangeiros nos clubes brasileiros gerou discussões sobre os impactos da medida no futebol nacional. Para o técnico Guto Ferreira, atualmente no Vila Nova e com passagem pelo Bahia, a mudança pode contribuir para o desenvolvimento do futebol brasileiro, mas precisa estar inserida em um projeto mais amplo.
Na avaliação do treinador, é necessário discutir não apenas o espaço destinado aos estrangeiros nos elencos, mas também as condições oferecidas aos jovens jogadores brasileiros para que eles possam ser desenvolvidos e chegar ao futebol profissional.
“Quando você consegue trazer grandes jogadores, eu acho que seria ótimo, mas precisa ver o que a gente quer atingir. Se nós queremos atingir a melhoria do nosso futebol para também ter uma melhoria da seleção e também o torcedor ser mais atraído para os estádios, eu acho que é um caminho. Mas não basta só esse caminho”, afirmou.
Guto chamou atenção principalmente para o cenário das categorias de base. Segundo ele, a quantidade de mudanças nas comissões técnicas e o calendário apertado prejudicam o processo de formação dos atletas.
“Hoje as divisões de base trocam mais de treinador do que os profissionais. Com esse negócio de Campeonato Brasileiro, eu nunca vi isso, queda de divisão na categoria júnior. Vai formar quem? Onde está o objetivo disso?”, questionou.
O treinador também criticou o calendário das competições sub-17 e sub-20. De acordo com Guto, a sequência de partidas pelo Campeonato Brasileiro e pelos estaduais deixa pouco espaço para os trabalhos de treinamento e aperfeiçoamento individual dos atletas.
“Sem dizer que hoje o Campeonato Brasileiro de sub-17, de sub-20, você não tem tempo de treinar, porque você joga quarta e domingo, quarta e domingo. Na realidade, quarta no Brasileiro, só que no domingo jogam os estaduais. E aí? Vai treinar quando? Vai aperfeiçoar quando? E 17 e 20 é justamente a lapidação, né? Então, tem vários erros junto com isso”, explicou.
Outro ponto levantado pelo técnico foi a diminuição das oportunidades para jogadores brasileiros mais jovens no futebol profissional. Para Guto, a falta de espaço faz com que muitos atletas deixem o país antes mesmo de receberem uma oportunidade consistente entre os profissionais.
“Anos atrás, quando a gente teve muitos jogadores sobrando, a gente tinha jogador com 19, 20, 21, 22 sendo aproveitado aqui. Hoje os jogadores vão para times de segunda mão, de segundo quilate ou até terceiro quilate, e Portugal é um trampolim para depois sair para o resto da Europa”, afirmou.
Na visão do treinador, esse movimento também interfere na capacidade dos clubes brasileiros de obter retorno financeiro com os jogadores formados em suas próprias categorias de base.
“E aí surge lá: esse não jogou no Brasil, não jogou no profissional, foi destaque na base. E aí quem ganha dinheiro não são os clubes, quem ganha dinheiro é o clube de lá, é quem o levou e assim por diante. E o futebol aqui cada vez mais pobre”, acrescentou.
Guto também citou o impacto da situação nas equipes das divisões inferiores. Segundo ele, clubes das Séries B e C, que historicamente serviam como espaço para o desenvolvimento de jovens atletas, passaram a encontrar mais dificuldades para cumprir esse papel.
“Os times de Série B, os times de Série C que tinham o aproveitamento e o aperfeiçoamento, a lapidação desses meninos, hoje já não têm. Já têm que buscar jogador em divisões menores, jogadores um pouco mais velhos e tentar dar uma qualificada na condição técnica”, declarou.
Apesar de reconhecer que jogadores estrangeiros podem elevar o nível do futebol brasileiro, Guto Ferreira também colocou em discussão a qualidade de parte dos atletas que chegam ao país.
Para o treinador, a abertura do mercado precisa estar relacionada à chegada de jogadores capazes de efetivamente acrescentar qualidade às equipes brasileiras.
“E os estrangeiros que estão vindo para cá? Quantos estrangeiros estão jogando aqui que são de nível A? Eu acho que tem jogador, um monte de jogador aqui que não tem nível para estar jogando no Campeonato Brasileiro”, afirmou.
Guto ainda questionou a relação entre o investimento realizado pelos clubes na contratação de determinados estrangeiros e o rendimento apresentado dentro de campo. “Inclusive, a gente traz nomes e o rendimento dele é no nível da Série A, ou ele já passou do ponto?”, completou.
A CBF aprovou mudanças nas regras para a utilização de estrangeiros nas competições nacionais. A discussão, porém, vai além do número de atletas de outras nacionalidades nos elencos e envolve questões como formação de jogadores, calendário das categorias de base, oportunidades no futebol profissional e capacidade dos clubes brasileiros de revelar e negociar seus próprios talentos.




